Tuesday, June 15, 2004

Japonesas, cidades, Bruegel e Borges

O trem não estava muito lotado.
Eu estava atrasado. Claro. Como é de costume. Tentava encurtar com falsa inclinação a leitura o longo trajeto que separava Itaquera do centro. Olhava muito ao relógio, mas não verificava as horas. Também divagava: Praguejava contra o infortúnio de morar longe, maldisia o sistema de transporte público e fitava a todos, nervoso, insinuando um boa tarde. Numa dessas fugidias olhadelas notei que fazia folga, distraida no acento de frente ao meu, uma bela menina.
Era bem diferente daquilo que se espera de uma japonesinha. Cabelos em cores mistas, lisos é óbvio, desenhavam um rosto belo, de olhos bem apertadinhos. Era generosa em formas e cuidava delas com cioso detalhismo. Modelado no corpo, a altura dos seios, estava um desses logotipos de conjunto americano de música barulhenta, cuja leitura é impraticável. Arrumava muito sua camiseta preta, de alsa, para que seu peircing se mantivesse exibido de maneira adequada. Muito próximo a ele, a uns dois dedos do umbigo, fizera uma tatuagem. Um bonito desenho que não se revelava por completo devido ao tamanho: suas terminações infelismente ficavam em regiões menos pudicas.
Ela ouvia rock pauleira e gesticulava bastante tentando acompanhar a letra com os lábios.
Quando nossos olhares se cruzaram ela corou. Eu também, suponho... Percebi que tentara um sôfrego flerte com a acuidade visual que me exige a faculdade de desenho.
Japonesas com vergonha riem. É cultural. E ela riu com a delicadeza que lhas é peculiar.
Voltei meu rosto para o livro que segurava e forcei-me a bocejar. Depois olhei para a janela fingindo tédio e indiferença.
O trem estava parado, sabe bem Deus seus motivos, naquela região que fica entre a Penha e o Tatuapé. Procurei como todos, as razões que impediam a composição de locomover-se.
O lugar é realmente peculiar. Fica num ponto em que a pobreza característica da maior parte zona leste começa a dar lugar ao luxo do Tatuapé. Vê-se claramente o contraste como num degradê que vai da severidade ossuda do nordestino às piadas didáticas das escolas de inglês. O sotaque nestas regiões começa a deixar o oxente de lado e passa a ser carregado de alegria italiana. Não que o nordestino não o seja. Mas sempre os vejo a discutir reverentemente os pormenores do dia de trabalho, as dores do espinhaço. Os problemas das classes medias e altas parecem sempre menos piores...
Ela de um certo modo também me dava esta idéia de contraste. Não sou especialista em japonesas, atente. E penso que ninguém o seja. Mas poderia jurar que a coisa de vinte anos não se pudesse apreciar a cena que reparara a pouco.
Uma aura bravia dela emanava, mas ao mesmo tempo que agredia também despertava uma ternura exótica e pitoresca. Imagino que sua avó, a obaa-san, nunca admitiria esta postura do mesmo modo que a minha, a nona, não aceita que eu use brincos.
Voltei a Jorge Luiz Borges, o do livro. E novamente não o li : o Brás se aproximava. Paramos novamente: Amaldiçoei o maquinista.
Embora o lugar fosse bem bonito eu como bom paulistano tinha o compromisso de não me permitir apreciar o panorama.Correr atrás do tempo para o homem urbano é como ter cicatrizes de batalha para o soldado. Mostra com um certo orgulho que temos o que fazer. Talvez seja herança dos bandeirantes esta ância por realizações.
Alí era o começo do centro velho de São Paulo.O Brás é muito mais interessante a noite, quando a multidão foi para casa, e o que nos resta é apenas a triste arquitetura. Algo antigo sempre se justifica na modernidade para existir. Como ervas parasitas, as novas construções se apoiam nas antigas para crescer e mostrar seu rosto de jovem. É este sopro errático de vida que faz o homem se reconhecer como ser humano. Semeamos um imenso jardim de pedras com muito trabalho e esperança de sermos nos dias vindouros um pouco melhores do que somos hoje.
É dificil ver estas suavidades nos olhos dos que por lá trabalham durante o dia. Sentimos com maior facilidade a aspereza da mãos calejadas dos que fazem força pelo pão. Luta-se por ele. Pessoas expertas em todas as artes oferecem-nos seus préstimos. Se você quer comprar, procure, pois por lá há. Se vender mais o interessa, terá um espaço. Se não houver, faz-se. Moças prometem carinhos diversos por preços módicos e garantem satisfação.
A lembrança de uma cidadela medieval arrebatou-me. Bruegel, o velho, teria pintado o Brás comendo acarajé. Todas as coisas se desenvolviam em torno da feira e as pessoas faziam suas vidas em rítimo frenético.
Parece que cidade moderna marcara um encontro com a cidade velha naquele lugar. Dialogariam a respeito do tempo e do espaço. Se encontrariam talvez numa esquina, numa praça para falar de seus filhos e filhas e aposto que a antiga diria com sua voz rabujenta de professora: - Você viu aquela japonesa ? Que absurdo....
Então a jovem, vaidosa e sarcastica comentaria : É. Aquele cabelo precisa de uma nova tintura.
Passou algum tempo desde aquele dia em que atrasei-me. Tenho ainda uma imagem daquela menina em minha mente, muito embora a boa memória não seja parceira frequente dos apressados. Lí o livro e me tornei fã daquele autor. Mas acho que meu raciocínio com relação ao lugar onde vivo fora equivocado e motivado pela emoção.
Que aquela japonesa emana ares de bandeirante é indiscutível. Mas encontrar-se consigo mesmo é impraticável no que toca as metrólis, pois ao mesmo tempo em que elas envelhecem, mais jovens elas se tornam.

3 Comments:

Blogger alfredo pacheco said...

foi uma cronica muito boa e bem elaborada, digna de um artista

June 16, 2004 4:14 AM  
Anonymous Anonymous said...

Aiaiaia, tive que postar o comentário anonimo mesmo... Bem, preciso dizer que eu adorei o blog, é a sua cara, Alfredo! E eu não esperava menos do seu texto, está ótimo, e eu vou ter que escrever um falando sobre a maldição oriental! Beijo! E vê se atualiza sempre!

June 16, 2004 11:48 AM  
Anonymous Anonymous said...

Aiaiaia, tive que postar o comentário anonimo mesmo... Bem, preciso dizer que eu adorei o blog, é a sua cara, Alfredo! E eu não esperava menos do seu texto, está ótimo, e eu vou ter que escrever um falando sobre a maldição oriental! Beijo! E vê se atualiza sempre!
Carol Helena

June 16, 2004 11:49 AM  

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