Wednesday, June 16, 2004

Crônica Paulistana

Era uma noite comum. Discorria em uma folha velha, a respeito de nossa filiação divina. Tentava explicar em palavras, tanto ao papel quanto a mim mesmo, aquilo que havia de extraordinário em ser filho de deus. Existe tanto mistério nisto, quanto explicidade no fato de todos nós sermos providos de protuberâncias caliprigias. Bunda. Todo ser humano é filho de deus e possui uma bunda. Onde mora o mérito?
O infortúnio destas questões produz uma ansiedade difícil de aplacar. Café era a saída.Acabou. Como todos que tem por hobby a filosofia, desejei café. E em geral, aqueles que o apreciam, gostam também da avenida paulista, lugar onde viveram os barões da dita semente.
Me aprecei em partir. Desci as escadas pois o elevador quebrara. Como se fazia mais tarde do que supunha, não pude usufruir do transporte coletivo. Minto. Fui a pé. E este é o transporte coletivo mais velho de que se tem noticias.
Caminhar me ajudava a espairecer. O dia foi complicado. O percurso que fazia para chegar ao escritório era longo, e uma parte dele era transposta através de caminhada. Mal se faz idéia do martírio que pode ser locomover-se no centro da cidade nos horário de rush.
Fazia calor. Melhor: eu suava. Algumas construções que se elevavam produziam alguma sombra. Outras, ainda em processo, turvavam o ar com uma nuvem de ruídos em forma de sinfonia, que unidos na poluição poeirenta, esparziam às calçadas uma multidão de trabalhadores.
Aqueles que não defendiam nenhum, também por lá estavam. Profissionais do comércio. Free lancers do ramo das importações. Por eles, toda sorte de tecnologia era exposta ao público. Toda mesmo. Até que isto diverte. Formam um belo colorido. Nos faz perceber de modo diferente os luminosos adormecidos do ouro lado do Viaduto do Chá. Como deve ter sido bom para aqueles ricos cafeicultores ver todo aquele panorama.
Mas o que me causa pavor é o transito. Não o dos carros, não posso competir com eles, e sim o humano. O engarrafamento sistemático de gente é um processo longo, artesanal e criterioso. O requinte na disposição dos transeuntes é fruto de Inteligência Superior.
Desviava dos marreteiros e panfletadores com alguma facilidade quando me vi encurralado: uma senhora gorda andava desapressadamente no trajeto que tomara como meu. Sabe aqueles dias de pressa ? Era baixa. Mais do que eu. Trazia os cabelos grisalhos e longos, suponho, presos em coque no alto da cabeça. Vestia, pasmem, uma blusa de lã laranja, própria das avós, e por cima ainda uma chalé cuidadosamente bordada. Estava envolta, para baixo da barriga, em uma saia cinza que caia até os joelhos e ainda meias.
Lenta era a manhã. Observava o deslocar daquela gentil velhinha com especial atenção às suas nádegas: eram muito grandes. Fazia com que a parte de trás das saias ficassem um pouca acima de onde se julga adequado. Exerciam um movimento sinuoso e ondulante de sobe-desce. Compassada aquela bunda era. Me lembrava muito o som de tambores.
Me irrita profundamente a lentidão. Ultrapassa-la implicaria em esbarrões indelicados. O barulho a impedia de ouvir minhas súplicas por espaço. Ver aquela gigantesca retaguarda desfilar sobre os calçamentos mapa de São Paulo e não ignorar o relógio é atordoante. Como pedi a Deus que parasse de ver aquilo.
Superado o viaduto, teatro municipal, e adjacências, cheguei meio atrasado a labuta.
Eventos assim acontecem a qualquer um. Sou conivente com a natureza das instabilidades. Até compactuo com elas. A saber, todos nós. Em algum momento, num lugar determinadíssimo, a ondulatória da camada adiposa que preenchia as anáguas daquela mulher iria influenciar a vida de outro ser. Assim diz a física.
Meus anseios por café, assim como os de resposta tiveram fundamento num deslocamento destes. Evito ser hermético: em nada me comove a refração do raio violeta e a sua influencia na vida sexual dos pedregulhos. Me refiro as conseqüências de explicações matemáticas, pragmaticamente improdutivas. Deus.
O poder das lembranças inebria. Estava na consolação ou no paraíso sem me dar conta. Entrei no Frans. Estas casas na madrugada são fascinantes. Encontrei lá outros que como eu eram acometidos pela insônia. Lendo escrevendo, compondo músicas. Todos profundamente concentrados menos algumas pudibundas jovens que procuravam por algo além do que aquele culto ambiente tinha a oferecer...
Sentei-me. Fui atendido e aviado. Pus-me a divagar. Lembrei do olhar terno que ela me dirigira antes de virar para o metrô. Olhos verdes. Italianos. Pensei no Bexiga. Ela parecia aprovar o fato de me encontrar apreçado. Responsável.
Deu sono. Que bom. Desisti com facilidade de minhas indagações. Assumi meu anonimato. Estava ansioso por no dia seguinte me ver entre a multidão. Olhei através da janela para os dois lados da avenida paulista, resolvi meu trajeto e finalmente terminei meu capuccino.

2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Impressionante como uma bunda pode influir nas nossas vidas!
Carol Helena- www.contosdafada.blogger.com.br

June 16, 2004 9:52 PM  
Anonymous flávia said...

oi alfredo...adorei seu blog...poético q nem eu...1000 beijos

May 30, 2005 11:09 AM  

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